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?Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr



Katherine Mansfield
(Foto: 1914)


Felicidade
(Bliss)?/b>

Katherine Mansfield


Embora Bertha Young j?tivesse trinta anos, ainda havia momentos como aquele em que ela queria correr, ao inv?s de caminhar, executar passos de dan?a subindo e descendo da cal?ada, rolar um aro, atirar alguma coisa para cima e apanh?la novamente, ou ficar quieta e rir de nada: rir, simplesmente.

O que pode algu?m fazer quando tem trinta anos e, virando a esquina de repente, ?tomado por um sentimento de absoluta felicidade — felicidade absoluta! — como se tivesse engolido um brilhante peda?o daquele sol da tardinha e ele estivesse queimando o peito, irradiando um pequeno chuveiro de chispas para dentro de cada part?cula do corpo, para cada ponta de dedo?

N?o h?meio de expressar isso sem parecer "b?bado e desvairado?" Ah! como a civiliza??o ?idiota! Para que termos um corpo, se somos obrigados a mant?lo encerrado em uma caixa, como se fosse um violino raro, muito raro?

"N?o, isso de violino n?o ?exatamente o que eu quero dizer" — ela pensou, correndo escadas acima e apalpando a bolsa, em busca da chave — que ela esquecera, como sempre — e sacudindo a caixa do correio. "N?o ?o que eu quero dizer, pois — "obrigada, Mary" — ela entrou no vest?bulo. "A bab?voltou?".

"Sim, senhora".

"E as frutas?".

"Sim, senhora. Veio tudo".

"Traga as frutas para a sala de jantar. Vou dar um arranjo nelas antes de subir".

Estava escuro e muito frio na sala de jantar. Mesmo assim, Bertha tirou o casaco; n?o podia tolerar por mais tempo o aperto da roupa, e o ar frio penetrou em seus bra?os.

Dentro do peito, no entanto; havia ainda aquele ponto brilhante, incandescente, de onde sa?a uma chuva de pequenas fagulhas. Era quase insuport?vel. Ela mal tinha coragem de respirar, por medo de ati?ar aquele fogo ainda mais; contudo, respirava fundo... fundo. Quase n?o tinha coragem de olhar-se no espelho frio; mas olhou, e ele mostrou-lhe uma mulher radiante, com l?bios tr?mulos, sorridentes, grandes olhos escuros e um ar de quem est??espera de que alguma coisa... divina aconte?a. Ela sabia que iria acontecer infalivelmente.

Mary trouxe as frutas em uma bandeja, e tamb?m uma tigela de lou?a e uma travessa azul, muito linda, com um brilho estranho, como se estivesse mergulhada em leite.

"Quer que eu acenda a luz, senhora?".

"N?o, obrigada. Ainda posso ver bastante bem".

Havia tangerinas, laranjas e ma??s, misturadas com o vermelho dos morangos. Algumas p?ras amarelas, lisas como seda, uvas brancas, cobertas por uma floresc?ncia prateada, e um grande cacho de uvas roxas. Estas ?ltimas, ela havia comprado para combinar com o tapete novo da sala de jantar. Sim, aquilo parecia bastante afetado e absurdo, mas era realmente a raz?o pela qual ela as tinha comprado. Na loja, havia pensado: "Preciso de algumas frutas cor de p?rpura para aproximar o tapete da mesa." E na ocasi?o isto pareceu fazer muito sentido.

Terminado o arranjo, duas pir?mides de forma arredondada, ela se colocou a certa dist?ncia, para ver o efeito — e estava realmente muito curioso, pois a mesa escura parecia dissolver-se na luz fosca e tanto a tigela de lou?a como a travessa azul pareciam flutuar no ar. Isso, ?claro, naquele estado de esp?rito que ela se encontrava, era t?o incrivelmente belo... Ela come?ou a rir.

"N?o, n?o. Estou ficando hist?rica". Pegou sua bolsa e seu casaco e subiu correndo para o quarto da filha.

A bab?estava sentada ao lado de uma mesa baixa dando o jantar da pequena B., depois do banho. A crian?a vestia uma camisola de flanela branca e um casaquinho azul, de l? Os cabelos finos e escuros estavam escovados formando um topetinho engra?ado. Ela olhou para cima e come?ou a pular quando viu a m?e.

"Agora, meu benzinho, coma direito, como uma boa menina", disse a bab? torcendo a boca num jeito bem conhecido dela, como a dizer que ela havia chegado em hora inoportuna, mais uma vez.

"Ela tem estado bem, Nanny?".

"Ela se comportou muito bem durante toda a tarde" murmurou Nanny. "Fomos ao parque; eu me sentei em uma cadeira e tirei-a do carrinho. Um cachorro enorme veio at? n?s, e p?s a cabe?a sobre meus joelhos. Ela agarrou a orelha dele, e puxou. Ah! a senhora devia ter visto."

Bertha teve vontade de perguntar se n?o seria perigoso deixar que a crian?a puxasse a orelha de um c?o desconhecido, mas n?o se atreveu. Permaneceu observando-as, os bra?os largados ao longo do corpo, qual uma menina pobre frente ?menina rica com sua boneca.

O beb?olhou para ela outra vez; fixou os olhos nela, sorriu com tanto encanto, que ela n?o se conteve.

"Ah! Nanny, deixe que eu termine de dar o jantar dela, enquanto voc?arruma o banheiro".

"Bem, madame. Ela n?o devia mudar de m?os enquanto come" — disse Nanny, ainda murmurando. "Isso a perturba e muito. ?muito prov?vel que ela v?ficar agitada".

Que absurdo! Para que ter uma crian?a, se ela deve ser guardada — n?o em uma caixa, como um violino raro, mas nos bra?os de uma outra mulher?

"N?o, ?assim que eu quero!".

Muito ofendida, Nanny entregou a crian?a.

"Bem, n?o a excite depois da comida. A senhora sabe que a excita, madame. E depois ela me d?um trabalho!".

Gra?as a Deus! Nanny saiu do quarto, levando as toalhas de banho.
"Agora eu a peguei para mim, minha coisinha preciosa" — disse Bertha, enquanto o beb?se inclinava para ela.

A crian?a comeu fazendo festa, abrindo a boca para receber a colher e depois agitando as m?os. ?s vezes prendia a colher na boca e outras, logo que Bertha enchia a colher, lan?ava a comida aos quatro ventos.

Terminada a refei??o, Bertha virou-se para a lareira.

"Voc??linda, muito linda!" disse, beijando seu beb? "Sou louca por voc?quot;.

E, realmente, ela a amava tanto! — Seu pesco?o, quando ela o inclinava para a frente, os artelhos delicados, quase transparentes ?luz do fogo... Todo aquele sentimento de felicidade voltou e, ainda uma vez, Bertha n?o sabia como expressar essa sensa??o, nem o que fazer com ela.

"Telefone para a senhora" — disse Nanny, voltando em triunfo e pegando a sua crian?a.

Bertha desceu correndo. Era Harry.

"Ah, ?voc? Ber? Olhe, vou chegar tarde. Tomarei um t?xi e irei t?o depressa quanto puder; mas sirva o jantar dez minutos mais tarde, sim? Tudo bem?".

"Sim, perfeitamente. Ah, Harry!".

"Sim?".

O que tinha ela para dizer? Nada. Queria apenas prolongar aquele contato. N?o podia s? gritar absurdamente: "O dia hoje foi t?o maravilhoso!"

"O que ?" — tornou a voz de longe.

"Nada. Entendu" — disse Bertha, colocando o fone no lugar e pensando o quanto a civiliza??o ?idiota.

Eles tinham convidados para o jantar: os Norman Knights, um casal muito distinto — ele estava abrindo um teatro e ela tinha muito entusiasmo por decora??o de interiores; um jovem, Eddie Warren, que acabava de publicar um pequeno livro de poemas ?a quem todo mundo vinha convidando para jantar, e um "achado" de Bertha, uma mo?a chamada Pearl Fulton. O que ela fazia, Bertha ignorava. Haviam-se encontrado no clube e Bertha se apaixonara por ela; isso sempre acontecia quando ela encontrava mulheres bonitas que revelassem algo incomum em sua personalidade.

O que a intrigava era que, embora tivessem estado juntas freq?entemente e conversado muito, Bertha n?o podia ainda ter um conceito formado sobre Pearl Fulton. At?certo ponto, ela era de uma franqueza rara e maravilhosa, mas al?m desse ponto ela n?o passava.

E haveria alguma coisa al?m disso? Harry dizia que n?o. Julgava-a um tanto ma?ante e "fria como todas as louras, com um toque, talvez, de anemia cerebral". Mas Bertha n?o concordava com isso; pelo menos, ainda n?o.

"N?o, sua maneira de sentar-se, com a cabe?a levemente inclinada para o lado, sorridente, esconde alguma coisa, Harry, e eu hei de descobrir que coisa ?essa".

"O mais prov?vel ?que seja est?mago pesado", disse Harry.

Ele se empenhava em pegar Bertha pelo p?com respostas daquele teor... "f?gado gelado, minha querida", ou "pura flatul?ncia", ou "doen?a dos rins"... e assim por diante. Por alguma estranha raz?o, Bertha gostava disso e quase o admirava por falar desse modo.

Ela entrou na sala de estar e acendeu a lareira; depois pegou as almofadas que Mary havia arrumado com todo cuidado e atirou-as de volta aos sof?s e cadeiras. Foi o bastante para dar vida ?sala. No momento de atirar a ?ltima almofada, ela se surpreendeu apertando-a contra si apaixonadamente. Mas isso n?o apagou o fogo em seu peito. Ah, pelo contr?rio!

As janelas da sala abriam-se para um balc?o, e davam para um jardim. No fundo, perto do muro, havia uma esguia pereira, toda florida, espl?ndida, que permanecia im?vel contra o c?u verde-jade. Bertha n?o podia deixar de sentir, mesmo a essa dist?ncia, que n?o havia um s?bot?o por abrir, nem uma p?tala murcha. Embaixo, nos canteiros do jardim, as tulipas vermelhas e amarelas, carregadas de flores, pareciam inclinar-se na penumbra: Um gato cinzento, arrastando-se de barriga, esgueirava-se atrav?s do gramado, e um gato preto, como se fora sua sombra, ia logo atr?s. Ela tremeu, curiosamente, ao v?los t?o atentos e r?pidos.

"Gato ?um bicho horr?vel!" — ela pensou, e, saindo da janela, come?ou a andar de um lado para outro. Como era forte o perfume dos junquilhos dentro da sala quente! Forte demais? N?o, n?o demais. E ent?o, como que vencida, ela atirou-se sobre um sof?e cobriu os olhos com as m?os.

"Estou muito feliz, muito feliz" — murmurou.

E parecia-lhe ver por entre as p?lpebras a linda pereira, com aquela abund?ncia de flores, como s?mbolo de sua pr?pria vida.

Realmente — realmente — ela tinha tudo. Era jovem, Harry e ela se amavam como nunca, davam-se muito bem e eram realmente bons companheiros. Ela tinha um ador?vel beb? N?o precisavam se preocupar com dinheiro. Tinham esta casa e este jardim, que eram absolutamente satisfat?rios. E amigos modernos, interessantes; amigos escritores, pintores e poetas ou pessoas voltadas para as quest?es sociais, justo a esp?cie de amigos que eles queriam. Al?m disso, havia os livros, havia a m?sica, e ela encontrara aquela costureirinha maravilhosa, sua cozinheira nova fazia omeletes deliciosos, e eles iam fazer uma viagem ao exterior, no ver?o.

"Estou ficando maluca! Maluca!" Ela sentou-se, mas sentiu-se inteiramente atordoada, inteiramente b?bada. Devia ser a primavera.

Sim, era a primavera. Agora, ela sentia-se t?o cansada que mal poderia subir a escada, para vestir-se.

Um vestido branco, um fio de contas de jade, sapatos verdes e meias. Era coincid?ncia. Ela havia decidido esse arranjo horas antes de ter estado ?janela da sala.

As dobras de sua saia produziram um suave farfalhar ao deslizar rente ao ch?o, quando ela foi ?porta de entrada e beijou a senhora Norman Knight, que estava tirando o mais estranho casaco cor de laranja, com uma fileira de macacos pretos em volta da barra, subindo na parte da frente.

"Por qu? Por qu?! Por que a classe m?dia ?t?o tola, t?o completamente desprovida de senso de humor?! ?por pura sorte que estou aqui, minha querida, e Norman ?meu anjo protetor. Meus queridos macacos chocaram tanto as pessoas do trem que elas simplesmente se puseram a me devorar com os olhos. N?o riram, n?o estavam achando gra?a, o que eu teria gostado. Apenas olharam-me fixamente e me fuzilaram com os olhos."

"Mas o melhor de tudo" — disse Norman, apertando contra o olho o mon?culo de aro de tartaruga — "voc?n?o se importa que eu conte, Face, se importa?" (Na intimidade eles se chamavam Face e Mug.) "O melhor de tudo foi quando ela, furiosa, virou-se para a mulher que estava ao seu lado e disse: "A senhora nunca viu um macaco antes?".

"Ah, sim" — a senhora Norman Knight juntou—se aos que riam. "N?o foi mesmo genial?".

E, mais engra?ado ainda era que agora, sem o agasalho, ela parecia um macaco muito inteligente, cujo vestido de seda amarela fora feito com cascas de bananas. E os brincos de ?mbar pareciam duas nozes bamboleantes.

"It is a sad, sad fall!"?— disse Mug, parando em frente ao carrinho do beb? "When the perambulator comes into the hall" — e ele deixou de lado o resto da cita??o.

A campainha tocou. Era o esbelto e p?lido Eddie Warren, em estado de completa desgra?a, como sempre.

"?esta casa mesmo, n?o ?" — perguntou ele.

"Bem, acho que sim. Pelo menos assim o espero" — disse Bertha, com anima??o.

"Acabo de ter uma experi?ncia muito desagrad?vel com um motorista de t?xi. Ele era terrivelmente sinistro. N?o pude conseguir que ele parasse. Quanto mais eu lhe chamava a aten??o e lhe pedia que parasse, mais depressa ele ia. E ?luz do luar aquela figura bizarra, com a cabe?a achatada, debru?ando-se sobre o min?sculo volante...".

Ele estremeceu, tirando um imenso cachecol de seda branca. Bertha notou que ele usava meias tamb?m brancas, muito vistosas.

"Mas, que coisa horr?vel!" disse ela em voz muito alta.

"Sim, foi mesmo" — disse Eddie, seguindo-a at?a sala de estar. — "Eu me vi decolando para a eternidade num t?xi alado".

Ele conhecia os Norman Knight. Na verdade ia escrever uma pe?a para Norman Knight, quando o esquema do teatro come?asse a funcionar.

"Bem, Warren, como est?a pe?a?" — perguntou Norman Knight, deixando cair o mon?culo e dando, assim, oportunidade ao olho de vir ?tona, antes de ser ocultado outra vez.

A Sra. Knight interveio: "Mas que meias lindas, Sr. Warren!"

"Que bom que a senhora tenha gostado delas", disse ele, olhando para os p?s. "Parece que elas ficaram muito mais brancas desde que a lua apareceu". Virou para Bertha o rosto magro e triste. "H?uma lua, a senhora sabe?".

Ela teve vontade de gritar: "?claro que sei! Muitas vezes, freq?entemente!".

Ele era, na verdade, uma pessoa muito atraente. Mas atraentes eram tamb?m Face, agachada em frente ao fogo, no seu vestido de cascas de bananas, e Mug, fumando um cigarro e dizendo, enquanto batia as cinzas: "Por que o noivo est?demorando tanto?".

"Ei-lo que chega!".

A porta da frente abriu e fechou com estrondo. Harry gritou: "Al? pessoal. Volto em cinco minutos!" Subiu correndo a escada. Bertha n?o p?de deixar de sorrir; ela sabia como ele gostava de agir sempre sob alta press?o. Afinal, que import?ncia teriam cinco minutos a mais? Mas ele sustentava para si mesmo que cinco minutos tinham, sim, muita import?ncia. E fazia quest?o, depois, de chegar e ficar na sala numa postura serena, tranq?ila.

Harry tinha um tal gosto pela vida... Ah, como ela apreciava isso nele! E sua paix?o pela luta, por encontrar em cada coisa que se lhe opunha um outro teste para seu poder e sua coragem, tamb?m isso ela compreendia. Mesmo quando, vez por outra, ele pudesse parecer talvez um tanto rid?culo, aos olhos dos que n?o o conheciam bem... Pois ?s vezes ele se atirava em batalhas que n?o existiam... Ela conversava e ria, realmente esquecida, at?a chegada dele ?sala (tal como ela imaginara), de que Pearl Fulton n?o viera ainda.

"Ser?que a Pearl esqueceu?".

"Espero que sim", disse Harry. "Ela tem telefone?" "Est? chegando um t?xi". E Bertha sorriu, com aquele divertido ar de posse que sempre assumia quando suas descobertas femininas eram novas e misteriosas. "Ela vive em t?xis".

"Assim vai engordar" — disse Harry com frieza, tocando a campainha para que o jantar fosse servido. "Um perigo assustador para mulheres louras".

"Harry, n?o diga isso" — advertiu Bertha, rindo.

Veio outro breve momento, enquanto esperavam rindo e conversando, s?um pouquinho ? vontade demais, um pouquinho descontra?dos demais. A?chegou Pearl Fulton, toda prateada, com uma tira de prata prendendo seus cabelos loiros, sorrindo, com a cabe?a pendendo um pouco para o lado.

"Estou atrasada?".

"N?o, absolutamente" — disse Bertha, pegando-a pelo bra?o. "Venha comigo". E entraram na sala de jantar.

O que havia naquele bra?o frio, que podia avivar — come?ar a ati?ar — ati?ar — o fogo da felicidade com o qual Bertha n?o sabia o que fazer?

Pearl Fulton n?o olhava para ela; quase nunca olhava as pessoas diretamente. Suas p?lpebras pesadas estavam sempre semicerradas, e em seus l?bios um estranho sorriso ia e vinha, como se ela, em vez de ver, preferisse ouvir. Mas Bertha soube, de repente, como se o mais longo, o mais ?ntimo olhar tivesse sido trocado entre elas, como se tivessem dito uma ?outra "Voc?tamb?m?", que Pearl, ao mexer a bela sopa vermelha em seu prato cinza, sentia exatamente o que ela estava sentindo.

E os outros? Face e Mug, Eddie e Harry, suas colheres subindo e descendo, tocando os l?bios com os guardanapos, fazendo bolotas com miolo de p?o, brincando com garfos e copos, conversavam.

"Eu a encontrei no show do Alpha — uma figurinha muito esquisita. Ela havia n?o apenas cortado rente os cabelos, mas tamb?m parecia ter tirado um bom peda?o dos bra?os e das pernas, do pesco?o e do pobre narizinho tamb?m".

"Ela n?o ?muito li?e a Michael Ost?".

"O homem que escreveu Love in False Teeth??quot;.

"Ele quer escrever uma pe?a para mim. Um ato. Um homem. Ele decide suicidar-se; discute todas as raz?es pr?e contra. E exatamente quando chega a uma conclus?o sobre o que fazer... cai o pano. Uma id?ia nada m?quot;.

"Como ele vai cham?la? Dor de est?mago?".

"Acho que encontrei a mesma id?ia numa revistinha francesa inteiramente desconhecida na Inglaterra".
N?o, eles n?o compartilhavam. Mas eram queridos — queridos — e ela gostava muito de t?los ali, em sua mesa, oferecendo-lhes comida e vinho deliciosos. Na verdade, ela desejava dizer-lhes o quanto eles eram encantadores e que grupo decorativo formavam; como eles pareciam avivar uns aos outros e como eles lhe faziam lembrar uma pe?a de Tchekov!

Harry estava gostando do jantar. Era pr?prio dele — bem, n?o sua natureza, exatamente, e n?o, certamente, uma pose — bem, um pouco de cada coisa — falar sobre comida e alardear sua paix?o "impudica por carne branca de lagosta e o verde dos sorvetes de pistache, verdes e frios como p?lpebras de bailarinas eg?pcias".

Quando ele levantou os olhos para ela e disse: "Bertha, este souffl?est? maravilhoso!", ela quase poderia ter chorado, com prazer infantil.

Ah! O que fazia com que ela se sentisse t?o terna com todo mundo, hoje? Tudo era bom, tudo estava certo. Tudo o que acontecia parecia encher de novo at?a borda sua ta?a de felicidade.

E havia ainda, no fundo de sua mente, a pereira. Ela estaria prateada, agora, sob a luz da lua do pobre Eddie, prateada como Pearl Fulton, que l?estava, sentada, fazendo girar uma tangerina com seus dedos finos e t?o p?lidos que um raio de luz parecia sair deles.

O que, na verdade, n?o podia compreender, o que era miraculoso, era como percebera o estado de esp?rito de Pearl Fulton de modo t?o r?pido e exato. Porque ela n?o tinha a menor d?vida de estar certa e, no entanto, em que podia se basear? Menos que nada.

"Acho que isso acontece muito, muito raramente entre mulheres. Nunca entre homens", pensou Bertha. "Mas enquanto eu estiver fazendo o caf? talvez ela me "d?um sinal", da sala de jantar."

O que queria dizer com isto ela n?o sabia, e o que viria a acontecer ela n?o podia imaginar.

Enquanto pensava, ela se via conversando e rindo. A vontade de rir fazia-a conversar.

"Eu preciso rir ou morrer".

Mas, ao notar o h?bito engra?ado que tinha Face de empurrar alguma coisa pelo decote abaixo — como se ela tivesse ali uma reserva de nozes ou algo assim — teve de fechar as m?os com tanta for?a a ponto de enterrar as unhas nas palmas das m?os, para n?o rir demais.

Tinham acabado, por fim. "Venham ver minha m?quina de fazer caf?quot;, disse Bertha.

"S?a cada quinze dias temos uma nova m?quina de fazer caf?nesta casa", disse Harry. Desta vez Face pegou Bertha pelo bra?o; Pearl Fulton inclinou a cabe?a e seguiu-as.

O fogo tinha-se reduzido na sala, para tornar-se um crepitante e rubro "ninho de filhotes de F?nix", segundo Face.

"N?o acendam as luzes, por enquanto. Est?t?o agrad?vel!". Ela agachou-se perto do fogo. Sempre tinha frio... "quando est?sem sua jaqueta de flanela vermelha de mico de realejo, ?claro", pensou Bertha.

Naquele momento Pearl Fulton "deu o sinal".

"Voc?s t?m um jardim?" disse a tranq?ila voz sonolenta. Foi t?o refinado da parte dela que tudo o que Bertha pode fazer foi obedecer; atravessou a sala, afastou as cortinas e abriu aquelas longas janelas.
"L?quot;, suspirou.

E as duas mulheres permaneceram de p? uma ao lado da outra, olhando para a esguia ?rvore florida. Embora o ambiente estivesse t?o tranq?ilo, a pereira parecia a chama de uma vela a alongar-se, apontar para o alto, tremer no ar brilhante, tornando-se cada vez mais alta enquanto elas olhavam, at?quase tocar os bordos prateados da lua redonda.

Quanto tempo elas ficaram ali? Ambas como que presas ?quele c?rculo de luz sobrenatural, compreendendo-se perfeitamente uma ?outra, criaturas de um outro mundo, e perguntando-se o que iriam fazer neste mundo com todo aquele alegre tesouro de felicidade que queimava em seus peitos e ca?a, como flores de prata, de seus cabelos e m?os?

Para sempre? Por um momento? E Pearl Fulton pareceu ter murmurado: "Sim, isso mesmo." Ou Bertha sonhara isto?

Ent?o a luz foi acesa, Face fazia o caf?e Harry dizia: "Minha querida Senhora Norman Knight, n?o me pergunte pe!a minha filha. Eu jamais a vejo. N?o terei por ela o menor interesse at?o dia em que tenha um amante", e Mug tirou o mon?culo, e tornou a coloc?lo, e Eddie Warren tomou seu caf?e colocou a x?cara no lugar com um rosto angustiado, como se ele tivesse engolido uma aranha e percebido o que fizera.

"O que eu quero ?dar lugar aos outros jovens. Acho que Londres est?fervilhando com excelentes pe?as ainda n?o escritas. Quero lhes dizer: Aqui est?o teatro; v?o em frente!".

"Sabe, querida? Vou decorar uma sala para os Jacob Nathan. Estou muito tentada a fazer um projeto tipo peixefrito, com o encosto das cadeiras em forma de frigideiras e lindas batatas fritas espalhadas por toda parte nas cortinas".

"A dificuldade com nossos autores jovens ?que eles s?o ainda demasiadamente rom?nticos. Ningu?m deve se lan?ar ao mar contando que n?o vai enjoar e dispensando uma bacia. Bem, por que n?o ter?o eles a coragem de usar essas bacias?".

"Um poema chocante sobre uma menina que foi violentada por um mendigo sem nariz, num pequeno bosque".

Pearl Fulton sentou-se ?vontade na poltrona mais baixa e mais funda, e Harry ofereceu cigarros a todos. Pela maneira como ele se p?s ?frente dela, sacudindo a caixa de prata dizendo asperamente "Eg?pcio? Turco? Virginiano? Est?o todos misturados", Bertha constatou que ela n?o apenas o aborrecia; ele realmente n?o gostava dela. E deduziu, pelo modo com que Pearl disse "Obrigada, n?o vou fumar", que ela tamb?m o sentira, e se magoara.

"N?o tenha essa antipatia por Pearl, Harry! Voc?est?redondamente enganado a respeito dela. Ela ?maravilhosa, maravilhosa! Al?m disso, como voc?pode pensar de modo t?o diferente de mim, sobre algu?m que significa tanto para mim? Tentarei contar-lhe mais tarde, quando estivermos na cama, o que est?acontecendo. O que eu e ela estamos compartilhando".

A essas ?ltimas palavras, alguma coisa estranha e quase aterrorizante penetrou na mente de Bertha. E essa coisa cega e sorridente sussurrou-lhe: "Logo essas pessoas ir?o embora. A casa ficar?tranq?ila, tranq?ila. As luzes ser?o apagadas. E voc?e ele ficar?o a s?s um com o outro, no quarto escuro, a cama quente...".

Ela saltou da cadeira e correu para o piano.

"Que pena que ningu?m toque!" — bradou. "Que pena que ningu?m toque!".

Pela primeira vez na vida Bertha Young desejou seu marido.

Ah! Ela o amava! Ela o amara sempre, ?claro, mas com outras formas de amor, n?o com o que sentia agora. E tamb?m, ?claro, ela havia compreendido que ele era diferente. Haviam discutido isto in?meras vezes. Ela havia se afligido horrivelmente, a princ?pio, ao descobrir sua pr?pria frigidez, mas, com o passar do tempo, isso deixara de incomod?la. Havia tanta franqueza entre os dois, eles eram t?o bons companheiros! Nisso estava a grande vantagem de serem modernos.

Mas agora — era com tes?o! Com tes?o! A palavra do?a em seu corpo em brasa. Era a isto que o seu sentimento de felicidade tinha levado? Mas ent?o, ent?o...

"Querida" — disse a Sra. Knight —, "?uma pena, mas voc?sabe que somos v?timas do tempo e do hor?rio do trem. Moramos em Hampstead. Foi uma noite t?o agrad?vel!".

"Vou acompanh?los at?a porta", disse Bertha. "Foi um prazer t?los conosco, mas voc?s n?o podem perder o ?ltimo trem. ?t?o desagrad?vel isto, n?o ? mesmo?".

"Antes de sair, voc?aceita um u?sque, Knight?" convidou Harry.

"N?o, obrigado, amigo velho".

?quelas palavras, Bertha despediu-se dele com um forte aperto de m?o.

"Boa-noite, at?outra vez!" gritou ela do alto da escada, sentindo como se uma parte de si estivesse se despedindo deles para sempre.

Ao chegar ?sala, encontrou os demais convidados preparando-se para sair.

"Ent?o, voc?pode fazer parte do trajeto em meu t?xi...".

"Eu lhe agrade?o muit?ssimo por n?o ter outra vez de enfrentar sozinho uma corrida de t?xi depois da terr?vel experi?ncia da vinda at?aqui".

"Voc?s podem tomar um t?xi logo no fim da rua, h?um ponto l? N?o ter?o de andar mais que uns poucos metros".

"?mesmo? Que bom! Vou vestir meu casaco".

Pearl Fulton encaminhou-se para o vest?bulo e Bertha a ia seguindo, quando Harry quase puxou-a para tr?s.

"Permita-me ajud?la".

Bertha viu que ele tinha se arrependido de sua rudeza e deixou-o ?vontade. Em certas coisas ele era um menino — t?o impulsivo — t?o simples.

Ela e Eddie foram deixados perto da lareira.


"Voc?j?viu o novo poema de Bilke "Mesa de Convidado"?" perguntou Eddie, baixo. "?t?o maravilhoso! Na ?ltima Antologia. Voc?tem um exemplar? Gostaria muito de mostr?lo a voc? Come?a por uma bel?ssima linha: "Por que deve ser sempre sopa de tomate?".

"Sim", disse Bertha. Em sil?ncio, encaminhou-se para uma mesa, no lado oposto ?porta, e Eddie acompanhou-a, tamb?m silencioso. Ela pegou o livro e entregou-o ao amigo; n?o tinham feito o menor ru?do.

Enquanto ele o folheava, ela levantou a cabe?a, olhando para o vest?bulo. E viu... Harry com o agasalho de Pearl Fulton nos bra?os e esta, de costas para ele, com a cabe?a inclinada. Ele atirou o casaco para um lado, colocou as m?os nos ombros dela, e virou-a com viol?ncia para ele. Seus l?bios diziam: "eu te adoro", e Pearl pousou os dedos finos sobre o rosto dele e sorriu aquele seu sorriso sonolento. As narinas de Harry tremiam; os l?bios ficaram repuxados para tr?s, numa crispa??o horr?vel, enquanto ele sussurrava: "amanh?quot; — e, piscando os olhos, Pearl disse: "sim".

"Aqui est?quot;, disse Eddie. "Por que deve ser sempre sopa de tomate?". ?uma verdade t?o profunda, n?o acha? Sopa de tomate ?t?o incrivelmente eterna!".

"Se voc?preferir", dizia a voz de Harry, bem alto, no vest?bulo, "posso chamar um t?xi pelo telefone".

"N?o ?necess?rio", disse Pearl Fulton e, chegando at?Bertha, estendeu-lhe os dedos delicados.

"At?logo. Muito obrigada."

"At?logo", disse Bertha.

Pearl conservou os dedos da amiga entre os seus por um momento.

"Como ?linda, a sua pereira", disse ela, baixinho.

E se foi, seguida por Eddie, como o gato preto acompanhando o gato cinzento.

"Vou fechar a casa", disse Harry, estranhamente tranq?ilo e contido.

"Sua linda pereira...".

Bertha correu para as janelas largas do jardim. "Deus! O que vai acontecer agora?".

Mas a pereira estava t?o linda como sempre, t?o im?vel e florida como sempre.

?Tal como saudade em portugu?s, bliss ?uma palavra inglesa sem correspondente exato em outras l?nguas. ?xtase, felicidade total, euforia, h?muitas tradu??es poss?veis, mas nenhuma atende a todas as nuances da palavra original. Preferimos felicidade, simplesmente, por ser a op??o mais simples, n?o excessiva, embora fique faltando alguma coisa. (N. da T.).

?"?uma queda triste, muito triste!" Em seguida: "Quando o carrinho do beb?vem para o vest?bulo".

?"O Amor em Dentes Posti?os".


Katherine Mansfield nasceu em 14 de outubro de 1888, em Wellington, Nova Zel?ndia. Filha de pais ingleses, de 1903 a 1906 estudou na Inglaterra. Voltou a Wellington, onde exerceu atividade liter?ria principiante. Convenceu seu pai a continuar seus estudos na Inglaterra, para l?retornando em 1908. Faz e desfaz no mesmo dia um casamento, em mar?o de 1909, em Londres. Fica gr?vida, j?em outra liga??o amorosa. Passa uma temporada na Alemanha com sua m?e, e em junho sofre um aborto. Volta a Londres em 1910 e um ano depois publica In a German Pension, seu primeiro volume de contos. Em meio a uma conturbada vida afetiva, sexual e social, v?seu irm?o morrer, em 1915, durante a guerra. Surgem os primeiros acessos de tuberculose. Em 1918 publica seu segundo volume de contos: Prelude. Em 1920, outro volume: Je Ne Parle Pas Fran?ais. Em 1921, Bliss and Other Stories. Em 1922, The Garden Party and Other Stories. Com o agravamento da tuberculose, tenta tratar-se na Su??a, em 1922. Morreu no dia 09 de janeiro de 1923, aos 34 anos de idade. Sua consagra??o ocorreu ap?s a morte. Teve mais de dez t?tulos p?stumos, entre relatos curtos, cartas e di?rios. Hoje ?considerada um dos maiores nomes da literatura inglesa. Dela disse Virginia Woolf, que a considerava o maior nome de contista na l?ngua inglesa: "eu tinha ci?me do que ela escrevia".


O texto acima foi extra?do do livro "
Felicidade e Outros Contos", Editora Revan — Rio de Janeiro, 1991, p?g. 11, tradu??o de Julieta Cupertino.

Tudo sobre a vida e a obra da autora em
http://www.nzedge.com/heroes/mansfield.html

Leia o "Soneto a Katherine Mansfield", homenagem de Vinicius de Moraes ?escritora, bem como a vers?o para a l?ngua inglesa de autoria de Regina Werneck.

 

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